Artigo – 2ª Publicação

 

DESTAQUE ARQUITETURA!
DESTAQUE ARQUITETURA!

ARQUITETURA COMO ARTE A PERCEPÇÃO DO ESPAÇO CONSTRUÍDO DA ESCOLA ESTADUAL GONÇALVES DIAS, DE SEVERIANO MÁRIO PORTO

Claudia Helena Campos Nascimento
Dener Briglia Piaia

A RELAÇÃO ENTRE ARQUITETURA E ARTE AO LONGO DO TEMPO

A evolução humana é envolta por uma miríade de processos construtivos e cognitivos que paulatinamente desenvolvem e moldam o cenário que cerca a todos nós. Ao analisar o desenvolvimento humano desde o período pré-histórico até os dias atuais, é possível acompanhar a história através dos artefatos desenvolvidos pelo homem, os quais são produzidos como resposta direta e prática de um padrão comportamental e moldado por uma cultura específica.

Analisando os primórdios da humanidade, é importante destacar a existência das pinturas rupestres. A criação dessas imagens estava diretamente relacionada à crença dos homens das cavernas de que tudo o que era retratado nas paredes de seus abrigos, aconteceria de fato com os animais reais, facilitando, assim, na empreitada real. Tal como explica Gombrich:

A explicação mais provável para essas pinturas rupestres ainda é a de que se trata das mais antigas relíquias da crença universal no poder produzido pelas imagens; dito em outras palavras, parece que esses caçadores primitivos imaginavam que, se fizessem uma imagem de sua presa – e até as spicaçassem com suas lanças e machados de pedra -, os animais verdadeiros também sucumbiriam ao seu poder. (GOMBRICH, 1995, p. 42).

A construção da Arte, entendida como historiografia, também se aproxima do conceito da própria Arte como fazer: que se projeta como ideia ou se lança como projeto de uma interpretação ou ideário. Ao desenhar caças, o homem primitivo impunha o desejo, isso é, projetava o ato de caçar e suas consequências. Arte e Arquitetura se aproximam, portanto, desde então, não apenas como suporte de uma para a outra, mas como princípio de projeto, literalmente dito, ao lançar ao futuro ou registrar o presente.

Avançando para o século IV a.C, destaca-se a produção Grega, que era também profundamente arraigada para fins ritualísticos. Quase que em toda sua totalidade, o produto artístico do povo grego durante seu apogeu se baseou em objetos que representavam cenas mitológicas, ou personalidades políticas, esculpidas para a adoração de seus súditos e por sentimento narcisista de seus próprios donos e retratados. As obras desse período foram desenvolvidas principalmente para a ornamentação de templos e palácios privados dos grandes imperadores a fim de alardear sua magnitude perante a população.

A racionalidade dos princípios clássicos, que também induzirá os processos de produção dos espaços, vai se constituir como marco identitário que fundamentará a cultura ocidental, como um todo. Esse princípio de ordenamento, traduzido no racionalismo, será retomado no Renascimento, sendo ciclicamente reconduzido como valor qualitativo, na História da Arte, em oposição ao experimentalismo e à exacerbação de determinados movimentos. O pensamento clássico, que fundamentou o racionalismo, será o contraponto à desordem ao longo da História da Arquitetura, como na Teoria da Pura Visualidade, de Heinrich Wölfflin, desenvolvido no século XIX. O teórico destaca que “Toda a obra de arte é um sistema de formas, um organismo. A sua característica essencial é constituída pelo carácter da necessidade, no sentido de que nada pode ser alterado ou deslocado, mas tudo deve permanecer como é” (WÖLFFLIN, 1989, p. 34).

Contemporaneamente às construções teóricas, as invenções técnicas surgem, trazendo novas inquietações conceituais. Foi com o advento da fotografia, em meados do século XIX, que essa correlação inseparável da obra de arte com sua função e poética passou a ser desmembrado. Com a Revolução Industrial e o surgimento da máquina fotográfica, houve uma ruptura bruta na produção artística, ao tornar-se possível capturar em segundos o retrato de um rei que um pintor levaria semanas para reproduzir.

Gombrich explica que:

O surgimento da máquina fotográfica portátil e do instantâneo ocorreu durante os mesmos anos que presenciaram a ascensão da pintura impressionista. […] Não havia necessidade de a pintura executar a tarefa que um dispositivo mecânico podia realizar melhor e mais barato. […] Por causa disso, os artistas viram-se cada vez mais compelidos a explorar regiões onde a máquina não podia substituí-los. De fato, a arte moderna dificilmente se converteria no que é sem o impacto da invenção da fotografia. (GOMBRICH, 1950, p. 524).

O surgimento da fotografia permitiu o desprendimento da reprodução fiel em favor do impressionismo, no seu significado mais básico. O objetivo era, mas do que capturar a forma, reproduzir o espírito e a atmosfera do que estava sendo capturado. Nesse contexto, com o passar do tempo, a arte chegou a um ponto tal de negação de sua formação básica e atingiu um núcleo tão profundo de negação corpórea que se diluiu em produto. Atualmente, por exemplo, não é mais necessária uma orquestra para se ouvir uma sinfonia de Beethoven, ou comprar passagens para apreciar a Mona Lisa em Paris.
Benjamin explica essa situação quando diz:

Mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e o agora da obra de arte, sua existência única, no lugar em que ela se encontra. É nessa existência única, e somente nela, que se desdobra a história da obra. Essa história compreende não apenas as transformações que ela sofreu com a passagem do tempo, em sua estrutura física, como as relações de propriedade em que ela ingressou.  Os vestígios das primeiras só podem ser investigados por análises químicas ou físicas, irrealizáveis na reprodução; os vestígios das segundas são o objeto de uma tradição, cuja reconstituição precisa partir do lugar em que se achava o original. (BENJAMIN, 1994, p. 167).

A reprodutibilidade técnica de Benjamim vai apontar também para o papel da apreciação da arquitetura moderna e sua modulação e reprodutibilidade como passíveis de compreensão de valor estético-artístico. O afastamento do objeto artístico de sua característica humana é onde também recai a problemática da produção arquitetônica. Esta área é moldada segundo incontáveis fatores exclusivos a ela que influenciam diretamente em seu resultado final: tal como contexto cultural e socioeconômico, localização geográfica e conforto ambiental e, principalmente, o espaço. Pensar esses parâmetros sem considerar as necessidades humanas é relegar a arquitetura ao âmbito puramente escultórico, desvalorizando sua característica primordial.

Por tudo isso, é importante ressaltar que a complexidade da análise arquitetônica se dá exatamente devido à sequência de algumas dualidades nas quais se baseiam. A Arquitetura-Projeto, concepção artística, se complementa na Arquitetura-Construção que, por sua vez, é percebida sua concepção que precisa ser observada como um todo, isso é, a Arquitetura-Percepção. Arquitetura não existe sem forma, assim como também não existe sem função e os pormenores dessas áreas que influenciam no subconsciente do homem é o que caracteriza a sutileza sobre a qual atua a Arquitetura. Definida a importância da concepção dos espaços para a relevância da arquitetura, é possível notar as maneiras pelas quais o usuário percebe.

Ao longo dos anos e do desenvolvimento tecnológico à disposição da arquitetura, foram diversos os efeitos criados pelo espaço sobre a percepção de seus usuários. A arquitetura modernista, por exemplo, defende as linhas simples e a ausência de adorno. Acredita-se que a simplicidade da forma e a maior extensão do vão livre objetivavam colocar a vivência social em destaque e desenvolver as relações interpessoais dentro da construção. A arquitetura gótica, por outro lado, desenvolveu as grandes basílicas com tetos altíssimos criando espaços opressores que incutiam no usuário a percepção de sua própria insignificância diante da presença divina.

 

FIRMITAS, UTILITAS ET VENUSTAS

Com o objetivo de demostrar as formas pelas quais a arquitetura, como expressão artística, consegue modelar a forma como o usuário experimenta o espaço, fez-se necessário um estudo de caso. Para tanto, selecionou-se a escola estadual de ensino médio Gonçalves Dias, cujo projeto é de autoria do arquiteto brasileiro Severiano Mário Porto.

A instituição localiza-se em Boa Vista – RR, Brasil, na avenida Getúlio Vargas, 4333, no bairro Canarinho, entre a Faculdade Roraimense de Ensino Superior (FARES) e o Colégio Militar Estadual de Roraima, Cel. Derly Luiz Vieira Borges (CME-PMRR), antiga Escola de Formação de Professores; fica fronteiro ao ginásio poliesportivo Hélio da Costa Campos.

Localização da Escola Gonçalves Dias.
Localização da Escola Gonçalves Dias.

A proposta de criação da escola foi aprovada em 12 de março de 1977; no entanto, o projeto arquitetônico foi elaborado nos três anos anteriores a esse, de 1976 a 1978, segundo informações localizadas nas pranchas de execução da obra, coletadas na Secretaria de Infraestrutura do Estado de Roraima (SEINF). Entre os anos 2010 e 2012 ocorreu reforma nas dependências da instituição, que gerou acréscimos significativos na área útil e intervenções em aspectos como climatização mecânica e alteração de cobertura (BORGES, 2016).

 

ANÁLISES FORMAIS DO PROJETO

Ao analisar as pranchas, é possível fazer a comparação do projeto original (primeira imagem) com a planta atual de prédio (segunda imagem), com destaque para os acréscimos volumétricos. Esses documentos esclarecem a relação existente entre os espaços originais e aqueles criados após a reforma dos anos posteriores, que são: a área do refeitório, na porção lateral inferior direita da planta; o prolongamento do bloco de sala de aula da esquerda; além do acréscimo de um quarto braço, a direita, na parte posterior do edifício. A ampliação dos blocos de sala de aula, todavia, seguiu a linguagem dos blocos existentes, tanto em planta quanto em composição estética (PIAIA, 2017).

Planta Baixa Original - Fonte: PIAIA, 2017.
Planta Baixa Original – Fonte: PIAIA, 2017.

Em se tratando de partido arquitetônico, há alguns pontos extremamente relevantes e que destacam com veemência a particularidade dessa edifi cação enquanto prédio público de ensino. A horizontalidade da obra é sua característica mais evidente, tanto nas linhas físicas, que compõem a fachada e as diversas volumetrias que compões seu todo, quanto na ligação visual existente em torno de toda a escola. Uma vez transpassada a porta principal de entrada, uma conexão visual é feita com praticamente todo o restante da edificação. Esse aspecto garante uma percepção ainda mais térrea e repousada no terreno, que gera uma sensação de segurança e conforto, derivada do fato de se ter sob observação todos os pontos da escola.

O segundo fator mais importante é sua conexão evidente com espaços verdes. Toda essa conexão visual entre os blocos que formam a instituição é permeada por vislumbres de vegetação através de cobogós e venezianas, composta por árvores e arbustos. Essa ligação com o exterior permite um senso de amplitude e desprendimento que é incomum encontrar em outras escolas públicas de região e, apesar da falta de manutenção ter gerado um predomínio de mato e ervas daninhas, esta ligação entre o interno e o externo ainda predomina de forma exitosa e agradável.

 

ANÁLISES SENSORIAIS DO EDIFÍCIO

A permeabilidade visual dos muros delimitadores da escola é mais um elemento importante na concepção arquitetônica da instituição. A divisão, entre a área delimitadora do espaço interno da escola e o terreno externo, se dá através de um muro baixo, formado pela sobreposição de cobogós retangulares de concreto. Essa alternativa evidencia uma delimitação suave entre as áreas internas e externas da construção. O olhar do observador transpõe o piso interno cerâmico da escola, percorre os jardins internos e extravasa os muros se perdendo no verde do terreno que a circunda. Esse efeito amplia a sensação de liberdade e de desprendimento físico da escola com relação aos limites físicos impostos aos seus usuários.

Concomitante a isso, a vedação frontal da escola se dá com grade metálica e não com muro de alvenaria. Essa decisão garante uma visibilidade com a vida que se passa fora dos muros da escola e permite um senso de passagem do tempo e ligação com o mundo exterior, sem criar, todavia, a sensação opressora de isolamento comportamental, que direciona o foco do usuário ao cumprimento das obrigações acadêmicas.

De modo geral, é a ligação do interno com o externo e o uso de painéis em relevos tridimensionais e de elementos vazados que garantem a particularidade da essência de sua arquitetura.

A impressão inicial que se tem da escola, quando vista da rua, é que o prédio é menor do que realmente é. Por se localizar próximo ao rio, o terreno é escalonado e vai perdendo níveis conforme avança para os fundos; por essa razão, a fachada principal da escola se restringe a linhas horizontais retas, formando um bloco

horizontal sobre o terreno, que esconde os diferentes blocos que compõem a instituição. A grade frontal de delimitação da escola garante a total visibilidade da fachada, cujas linhas horizontais são corroboradas pela disposição das janelas de madeira com vidro e pela bandeira veneziana em toda a sua extensão.

Ao adentrar nas dependências da escola é perceptível a forma como ela é abraçada pelo verde que circunda o terreno. Logo à entrada, surge como elemento de relevante surpresa um jardim interno que garante um assento em L contínuo ao lado de árvores e arbustos, além de uma escadaria que leva a um pátio descoberto repleto de verde, apesar de, infelizmente, em sua maioria estar tomado pelo mato.

Logo em frente à entrada principal, há uma parede de cobogós e um painel tridimensional, formado por peças iguais, mas dispostas de diferentes formas, criando uma composição geométrica em preto e branco, a qual garante um ponto focal de contraste com o restante das cores da escola e dá boas-vindas ao olhar de todos que entram na escola. Sua dimensão totalizando o vão entre o piso e a laje confere uma imponência à escultura, que predomina sob os demais aspectos físicos desse pátio.

Continuando com a visita, percebe-se que a integração com a natureza se repete ao longo de todo o prédio. Formado por quatro braços individuais que se dispõem paralelamente ao pátio central, esses volumes, formados por salas de aula, são intercalados por vazios construtivos, os quais são preenchidos por árvores frutíferas e por arbustos variados. Esses vazios são vislumbrados por toda a escola graças à instalação de cobogós retangulares de concreto que atuam como divisores da circulação da sala de aula dos jardins do entorno. A sobreposição dos blocos vazados de forma simples cria uma trama interessante que se assemelha a uma estampa geométrica.

Vista do pátio, com destaque aos painéis - Fonte: PIAIA, 2016
Vista do pátio, com destaque aos painéis – Fonte: PIAIA, 2016

 

Corredores, esquadrias e painéis de cobogós - Fonte: PIAIA, 2016.
Corredores, esquadrias e painéis de cobogós – Fonte: PIAIA, 2016.

Assim como na fachada, os volumes que compõem as salas de aula também se caracterizam pela horizontalidade. A partir da circulação principal, é possível a observação desses volumes horizontais, que hora se estendem sobre o terreno, com os elementos vazados (quando observados da parte mais alta para a mais baixa do terreno), ora com um ritmo constante de pilares robustos, intercalados por janelas de madeira com vedação de vidro e bandeira veneziana dispostas em fita (quando observados do nível mais baixo para o mais alto).

Aspecto geral do pátio, com sala de professores ao fundo - Fonte: PIAIA, 2016.
Aspecto geral do pátio, com sala de professores ao fundo – Fonte: PIAIA, 2016.

A horizontalidade de linhas da Escola Gonçalves Dias é quebrada apenas pelo volume da sala dos professores. Localizada na área à esquerda do pátio central, a volumetria hexagonal com face frontal de vidro desse cômodo quebra o ritmo de linhas paralelas e ortogonais, criando um elemento de interesse visual no centro da instituição.

 

ANÁLISES COMPORTAMENTAIS SOBRE A OBRA ARQUITETÔNICA

Para desenvolver a análise técnica da obra arquitetônica e sua influência sobre o usuário, desenvolveu-se, ao longo de uma semana, 4 abordagens práticas para a análise do objeto de estudo:

    • Análise pessoal do espaço;
    • Análise comportamental por observação;
    • Mapa Axial;
    • Entrevistas.

Num primeiro momento foi feito o reconhecimento das dependências da escola com base exclusiva na percepção do pesquisador como usuário e como explorador de um espaço desconhecido. Para tanto, foi utilizada a metodologia da pesquisa participante, seguido de registro, feito por meio de um levantamento fotográfico como material de apoio acerca dos elementos que se destacaram durante a exploração e os pontos interessantes na construção sob um ponto de vista pessoal, que foram registrados como memorial do processo (GÜNTHER et al., 2004).

Em seguida, utilizou-se a técnica apontada por Jan Gehl e Svare (2000), de forma adaptada, a fim de obter informações acerca da forma de apropriação do espaço construído pelos usuários. Os autores apontam como metodologia o desenvolvimento de uma agenda de observação comportamental em horários-chave para se colher as formas que o usuário interage com o espaço construído em diferentes períodos do dia. Na Escola Gonçalves Dias foram analisados os períodos de intervalos entre as aulas devido ao maior fluxo de pessoas nos espaços.

Baseado nessa mesma referência desenvolveu-se ao longo de três dias um mapeamento do fluxograma da escola e das áreas utilizadas como assento. Durante 15 minutos, entre as 15 h 30 min e as 15 h 45 min, nos dias 22, 23 e 24 de novembro de 2016, com o auxílio de uma impressão da planta baixa atualizada do prédio, realizou-se a marcação dos pontos escolhidos como área de socialização/assento e traçou-se os caminhos feitos pelos usuários para o deslocamento entre os ambientes (PIAIA, 2017).

A terceira fase desenvolveu-se a partir de um método de estudo apresentado por Patricia O. Andreane, Eric O. J. Rosas e Cesáreo E. Rodriguez no Capítulo V do livro intitulado Psicologia Ambiental (GÜNTHER et al., 2004). Esse método consiste no levantamento de informações acerca do fluxograma do espaço e sobre o quanto os usuários são capazes de localizar-se no ambiente a ser analisado.

Por fim, foram realizadas entrevistas. Essa etapa foi feita aleatoriamente com usuários de diferentes idades e funções variadas dentro das dependências da escola, com o fim de colher informações acerca das suas respostas pessoais ao ambiente construído. Ao total, foram feitas 24 entrevistas.

Ao colher os dados da pesquisa e analisar a planta alterada, após a reforma de 2012, conforme apresentado posteriormente, constatou-se a direta relação entre os novos espaços e as deficiências da arquitetura apontadas pelas análises técnicas. Entre elas destacam-se:

    • O novo bloco de refeitório possui um acesso estreito, escuro e desconfortável em completa incongruência com o partido arquitetônico integrado e amplo, desenvolvido por Severiano.,
    • A extensão do bloco central de salas de aula criou uma circulação muito longa e desconfortável. Apesar de respeitar a identidade visual do projeto, criou um ambiente batizado pelos alunos como “corredor da morte” devido à sua longa e monótona extensão.
    • O quarto bloco de salas de aula, apesar de respeitar a estrutura do prédio e a linguagem arquitetônica, mostrou-se, em análise de mapa axial, um ponto de tomada de decisão confuso, que compromete a compreensão espacial do ambiente construído como um todo.

Em conclusão: a identidade arquitetônica da escola Gonçalves Dias, de forma geral, foi preservada, mas sua característica ideológica foi deixada em segundo plano. É quase imperceptível a diferença volumétrica entre a edificação original da escola, em relação aos acréscimos mais recentes; porém, a extensão extra de corredores e os acréscimos de ambientes que foram desenvolvidos sem levar em consideração as características subjetivas da obra arquitetônica de Severiano é que se tornam responsáveis pelos pontos ineficientes e problemáticos da obra nos dias atuais. Severiano é reconhecido pela integração de seus projetos com as áreas verdes e sua adequação aos fatores climáticos da região norte. Apesar de superficialmente isso ter sido levado em consideração, a um nível mais subjetivo, no qual a eficácia da influência sobre o usuário de fato ocorre, essas alterações foram insuficientes.

Sob esse ponto de vista mais interiorizado das características dessa obra do artista, algumas alternativas poderiam ter sido tomadas para garantir uma maior coerência com o contexto.

A área do refeitório poderia ter sido mais amplamente incluída no contexto externo da escola. Se estendido este ambiente ao alinhamento dos volumes do lado direito da instituição, além de aumentar a área de uso que hoje é insuficiente, garantiria uma maior conexão desse espaço com o jardim externo. Com isso, poderiam ser criados dois tipos diferentes de ambientes, um coberto e um aberto, garantindo uma total relação entre ambientes internos/externos, tal como todo o restante da escola, além de fornecer um espaço mais aconchegante e confortável para os usuários.

Quanto à grande extensão do segundo corredor de salas de aula, uma quebra em sua volumetria garantiria sua adequação. Entre o pátio principal e este corredor possui um pátio aberto que claramente foi desenvolvido para ser usado como um pátio externo. Esta área já possui pavimentação e uma escada que leva àquele grande corredor. A abertura de um vão no meio dessa grande parede de cobogós, garantindo a ligação dessa circulação com esse espaço intermediário e aberto quebraria a extensão excessiva criada no corredor e garantiria sua conexão com a área externa, possivelmente reavivando e criando uso a um espaço que hoje não é utilizado.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se a arquitetura é resultado de sinapses entre ideias e abordagens pré desenvolvidas, é imprescindível aprender a lê-la com clareza. Interiorizar padrões volumétricos e partidos conceituais sem apreender a complexidade arquitetônica que caracteriza uma obra do campo Artístico é garantir a perpetuação de uma arquitetura rasa e sem personalidade, que pouco faz pelo homem além de tentar ser bonita ou funcional.

Através de leituras profundas e subjetivas é que se garante uma intervenção positiva e eficiente em um projeto arquitetônico. O mais importante de tudo é saber conciliar o olhar prático e o olhar sentimental. Talvez seja exatamente aí que se transpunha o limite entre a construção e arquitetura. Aquela seria o percurso mais rápido entre dois pontos, enquanto que a arquitetura seria todas as curvas e surpresas criadas pelo caminho para tornar esse percurso mais agradável.

Avaliando a sensibilidade de resposta a todas essas variantes é que a construção civil desenvolve sua poesia e seu lirismo e passa, então, a contar sua história e se torna arquitetura. Essa, possivelmente, é a principal causa da desvalorização da arquitetura dentro do campo da construção civil. Qualquer usuário que entre em um espaço construído consegue atribuir a presença de vigas e colunas ao trabalho do engenheiro em proporcionar segurança e estabilidade àquele edifício. A influência arquitetônica, porém, se manifesta em níveis muito mais profundos do subconsciente do usuário através de uma sensação de amplitude, conforto e deslumbramento que dificilmente extravasa o interior e se expressa em palavras e reconhecimento.

Coelho Netto explica esse fenômeno quando diz que:

se o espaço mantém um relacionamento direto com o corpo do indivíduo adquirindo em consequência uma significação precisa, ele alimenta igualmente uma ligação não menos direta com o imaginário desse indivíduo, através do qual esse espaço se semantiza de modo frequentemente de todo diverso do que ocorre no primeiro caso, e de modo nem sempre definido, distinto (já que nesse caso a semantização se opera particularmente ao nível do subconsciente ou mesmo do inconsciente) porém não menos certo e determinável. (COELHO NETTO, 2014, p. 118).

A influência psicológica que um projeto arquitetônico bem desenvolvido tem sobre as relações interpessoais e a capacidade de ajudar a influenciar positivamente na sociedade. Mara Campos-de-Carvalho registra que:

aspectos físicos ambientais, tanto quanto aspectos sociais, influenciam o desenvolvimento humano, pois os processos de desenvolvimento ocorrem através de interações entre pessoa e seu ambiente, este incluindo aspectos físicos, sociais, culturais, econômicos, políticos etc. (CAMPOS-DE-CARVALHO, in GÜNTHER et al., 2004, p. 182).

No mesmo livro, Marcos Ribeiro Ferreira esclarece, por fim, a maneira pela qual o meio influencia no desenvolvimento humano através da relação sadia entre o usuário e a habitação. Nesse contexto, aponta o período do pós-guerra no qual foi evidenciada a importância dessa relação de simbiose de interesses e explica que:

No âmbito da Psicologia Ambiental, a preocupação com o planejamento de ambientes construídos aparece com ênfase na busca de compatibilidade entre as características das edificações e os fins a que elas seriam dedicadas. […] Os primeiros estudos visaram estabelecer quais características das edificações poderiam ser mais favoráveis ao processo terapêutico a que as pessoas seriam submetidas. O responsável por sua introdução e institucionalização foi enfático em frisar que suas preocupações iam muito além de produzir projetos arquitetônicos. Para ele, o papel da Psicologia ao se envolver com esse tipo de problema era nada menos do que contribuir para a produção de dignidade humana (FERREIRA, in GÜNTHER et al.,2004, p. 24).

Por tudo isso, percebe-se o impacto positivo que uma obra de arquitetura bem desenvolvida, como a de Severiano Mário Porto, tem sobre o usuário. Através das entrevistas feitas com os alunos, uma fala recorrente era a de que a escola Gonçalves Dias era a “[…] única escola pública de Boa Vista que não se parece com um presídio”. A percepção do arquiteto de fazer uma obra de arquitetura, que seja ao mesmo tempo funcional e eficiente, mas que dialoga com os alunos de forma a construir um espaço que lhes abre os horizontes visuais, exemplifica a capacidade de se usufruir de técnicas simples, mas que são capazes de influenciar também nos horizontes psicológicos daqueles que a utilizam.

É necessário, portanto, abrir-se sensorialmente a uma obra arquitetônica, saber ouvir o que sussurra suas paredes e identificar de que forma seu corpo guia esse diálogo. É através dessas conversas entre obras e usuários que a história das civilizações vai sendo narrada.

Coelho Netto explica a relação tortuosa do processo de percepção arquitetônica ao fazer a conexão entre o fantástico e o real. Ele pontua que o imaginário “ não pode ser descrito como fantasia, alucinação, mas como o universo de um modo de relacionamento da consciência individual com objetos reais ou virtuais.” (NETTO, 2014). Define-se, então, a relação do usuário com a arquitetura no que se refere à percepção inconsciente daquele espaço. O ambiente construído, aqui nomeado de objeto real, atua diretamente sobre o imaginário criando, assim, respostas específicas a diferentes estímulos aos quais o usuário se submete interpretando-as sob a ótica particular de sua bagagem cultural e percepção de mundo.

Partindo desse princípio para a percepção das formas de arte intrínsecas à arquitetura, o usuário deve despir-se de sua racionalidade e abrir-se sensorialmente, a fim de notar o subconsciente atrelado à fala do partido arquitetônico da obra. Ao fazer isso, o usuário permite ser influenciado de todas as maneiras pelas quais a arquitetura se arma para atuar sobre a vida humana.

Percebe-se então, que a qualidade do ambiente construído está diretamente relacionada à qualidade de vida do usuário. Esse estado, porém, abrange muito mais do que instalações confortáveis, como também o desenvolvimento de um espaço satisfatório para o psicológico humano. Tal influência sob a psique humana só pode ser alcançada, porém, através da influência artística da arquitetura responsável por criar áureas agradáveis e benéficas para o desenvolvimento humano.

É através dessa influência figurada, poética e metafórica que a arquitetura exerce seu poder na alma das pessoas e, consequentemente, consegue um valor artístico, social e psicológico muito maior que o de uma obra de construção civil qualquer. É através do controle pragmático da matéria que o arquiteto consegue moldar o subjetivo.

Portanto, pelo caráter polissêmico e de valor reconhecido da Escola Estadual Gonçalves Dias, é inegável a conclusão de seu valor como obra de arte.

 

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994. 253 p.

BORGES, H. S. Avaliação de pós-ocupação: estudo de caso da Escola Estadual Gonçalves Dias em Boa Vista – RR, de Severiano Mário de Magalhães Porto. 2016. 83 p. Trabalho de conclusão de curso (Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal de Roraima UFRR), Boa Vista, 2016.

COELHO NETTO, J. Teixeira. A Construção do Sentido na Arquitetura. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2014. 179p.

GEHL, Jan; SVARRE, Birgite. How to Study Public Spaces. Whashington: Islandpress. 2000. 177 p.

GOMBRICH, Ernest H. A História da Arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2008. 688 p.

GÜNTHER, Hartmut; PINHEIRO, José Q.; GUZZO, Raquel Souza Lobo (orgs.). Psicologia Ambiental: entendendo as relações do homem com seu ambiente. São Paulo: Alínea, 2004.

OKAMOTO, Jun. Percepção Ambiental e Comportamento: visão holística da percepção ambiental na Arquitetura e Comunicação. São Paulo: Mackenzie, 2002. 261 p.

PIAIA, D. Briglia. Arquitetura como arte e a percepção do usuário: um estudo de caso da Escola Estadual Gonçalves Dias, Boa Vista – RR. 2017. 84 p. Trabalho de conclusão de curso (Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal de Roraima UFRR), Boa Vista, 2017.

PIGNATARI, Décio, Semiótica da Arte e da Arquitetura. 4. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2004. 186 p.

TOLSTÓI, Leon, O que é arte? 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. 247 p.

WÖLFFLIN, Heinrich. Conceitos fundamentais de História da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

ZEVI, Bruno. Saber Ver a Arquitetura. 6. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009. 296 p.

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